terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Mau-caráter, pilantra e patife!

Já era dia, mas ainda não dava pra ver o sol de dentro do Santana na Avenida Fernandes Lima. Carros e pedestres ainda eram poucos. Parecia que nem os pássaros haviam acordado ainda, o que tornava o silêncio dentro do carro algo ainda mais perturbador. Estavam calados, os dois, desde que sairam de casa. E se o tempo que levaram para descer os 6 andares do elevador em silêncio pareceu uma eternidade, o que dizer do longo caminho até o Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares?

Além de toda ansiedade, a discussão do dia anterior, às vésperas da grande viagem de sua vida, deixaram Yuri ainda mais inquieto, insone. A noite tinha sido longa, quase interminável, e ele tinha pensado bastante em tudo o que seu Armindo falara. Tentou entender, afinal, era seu pai, seu grande ídolo, seu maior exemplo de ética, dignidade e idoneidade quem o aconselhara. E se seu Armindo disse aquilo, com toda aquela seriedade, havia de ser verdade.

Yuri tentou, de verdade, enxergar o ponto de vista de seu velho, mas não conseguiu. Afinal, ele também não era mais uma criança. Do alto de seus 15 anos, já havia percebido que seu Armindo não era o dono de todas as verdades do mundo, e que eles mesmos tinham opiniões diferentes sobre mulheres, futebol, talvez. Mas o assunto dessa vez era sério, e em assuntos sérios, seu Armindo não errava. Por isso, mesmo com aquele silêncio sepulcral, mesmo com a boca seca e halitosa, de quem acorda e sai de casa apressado, sem tomar café, e mesmo com seu Armindo demonstrando pressa em deixar o filho no aeroporto, provavelmente para não tocar mais naquele assunto, Yuri sabia que, se não falasse, sua viagem não seria a mesma. Ia ficar emburrado, intrigado, triste. E ele não queria conhecer a Disney assim, emburrado, intrigado e triste. E foi ali, exatamente quando passavam o trevo da polícia rodoviária federal para pegar a BR, que ele decidiu quebrar o gelo.

- Por que você não gosta dele, pai?

Silêncio. Porra, pai! Pensou. Ele sabia que essa era a resposta de seu Armindo quando não queria conversar e, por isso, pensou novamente em deixar para lá. Mas o assunto era sério, e por isso, insistiu.

- Hein, pai? Responde...

- Responder o quê?

Fingir que não ouviu, responder com outra pergunta. Era assim que seu Armindo deixava claro que estava evitando a conversa. Porra, pai!

- Por que você não gosta dele, pai?

Se seu Armindo dava seus sinais de que não queria papo, Yuri também conseguia demonstrar que, enquanto não se resolvessem, não sairia do carro. Ele vai me responder, ele tem que responder. Seu Armindo não teve escolha.

- Porque ele é um mau-caráter! Um idiota, um farsante, um metido. Um bostinha!

- Mas você sabia que ele ia estar nessa viagem, pai. Você sabia que eu ia encontrá-lo, e que nós íamos nos divertir juntos.

- Por isso mesmo tentei te convencer a não ir, Yuri. Você sabe muito bem que eu não te criei pra te ver andando com esse tipo de marginal, não é?

- Mas ele é legal, pai. Todo mundo gosta dele. Todo mundo mesmo. Só você que tem essa implicância.

- Implicância não, ele é um mau-caráter. Um biltre, um patife, um crápula, para falar nos mesmos termos que ele usa quando fala mal dos outros.

- O que foi que ele te fez de tão ruim, pai?

- A mim, nada. Nem conheço, nem quero conhecê-lo. Mas a namorada dele, por exemplo... ele a namora há pelo menos uns 20 anos, e não casa? Tá enrolando a moça ou o quê? Isso é coisa que se faça? Isso é exemplo que se dê pra criançada?

- Nada a ver, pai.

- Nada a ver? E o amigo dele então, aquele altão? Não sei como aquele ali ainda anda com ele, porque ele usa a inocência do outro para se promover, e manipula, para pagar de inteligente, enquanto fica diminuindo, ridicularizando e infantilizando o amigo. Isso é sacanagem pesada, isso lá é coisa que se faça? Com um amigo?

- Ah, pai, sei não... implicância sua...

- Ele é um vagabundo. Um cara velho, e que não trabalha. qual o emprego dele? Você sabe? Onde ele já trabalhou? Se formou em que? Estudou onde?

- Não sei não, pai.

- É um puxa-saco, um baba-ovo! Passa o dia puxando o saco do delegado, se metendo a policial. Deve ser por medo de ser preso, só pode.

- Ah, mas ele até ajuda o pessoal da polícia, né?

- Ajuda nada, ele fica é se metendo a espião, querendo levar o mérito de toda investigação, mas no fundo ele quer derrubar o delegado, tomar o lugar dele, tenho certeza. Porque, que eu saiba, ele nem é concursado da polícia federal, nem da civil, nem nunca entrou na academia da Polícia Militar. Então como pode ser policial?

Yuri ficou calado. Primeiro porque seu Armindo já encostava seu velho e conservado Santana 94 próximo ao portão de embarque. Segundo porque, no fundo, ele sabia que sairia dali derrotado.

- Eu até acho que ele deve estar sempre perto do delegado, mas do outro lado da grade. Além disso, é um dedo duro, um X9, um alcaguete. Fica como uma vizinha gorda espiando todo mundo, entregando o que todo mundo faz de errado, pagando de bonzinho, corretinho. Pilantra! FDP! Cagão!

Seu Armindo já estava com o dedo em riste, a veia do pescoço saltando, a saliva branca acumulando no canto da boca, as bochechas avermelhadas e um olhar firme, com as sobrancelhas pressionando os olhos para baixo, quase desabando sobre eles, quando completou o raciocínio.

- Esse que se faz de bonzinho geralmente é o pior tipo de elemento.

Yuri sabia que não tinha como convencer o velho Armindo. Que saco! Bom, pelo menos tiveram aquela conversa, de certa forma quebraram o gelo e, mesmo tendo que ceder à opinião do pai, podia viajar mais tranquilo agora. Pai é pai, fazer o quê? Só precisava falar a velha frase mágica que tranquiliza qualquer pai ou responsável, em qualquer situação. E, já fora do carro, enquanto subia manualmente o cinto de segurança, recolhendo-o ao seu lugar original, já que há uns 3 anos o cinto, desgastado, não recolhia sozinho, olhou nos olhos do pai e falou, sério.

- Tudo bem, pai. Eu prometo que não vou andar com ele... nem mesmo vou falar com ele durante toda a viagem.

Virou e saiu, puxando sua mala de rodinhas, com a mochila nas costas. Ouviu o barulho do Santana se distanciando, ficou feliz novamente. Conheço bem o velho, se foi embora assim, do nada, é porque foi tranquilo. Estava feliz, prestes a realizar o sonho de sua vida, de embarcar em sua grande viagem. E agora que tinha, de certa forma, se acertado com o pai, podia viajar mais leve, sem culpa, sem ressentimento, sem nenhum peso nas costas. Ou quase nenhum, já que a mochila ia quase vazia para voltar, dali a 15 dias, cheia de presentes para todos.

Mas ele sabia que teria uma difícil missão pela frente. Afinal, seria quase impossível passar 15 dias na Disney evitando aquele filho da puta, aquele mau-caráter do Mickey.

1 comentários:

Anônimo disse...

É... um rato.