sexta-feira, 3 de junho de 2011

Outros Tempos.

- Tchau, pai.

- Onde você vai assim, Ricardo?

- Ih, lá vem você com esse papo furado.

- Sou seu pai.

- Vou encontrar a Dani, a gente vai no cinema.

- E você vai assim?

- O que é que tem?

- Meu filho, isso não é roupa de sair com a namorada, né? Convenhamos.

- Qual é pai, relaxa.

- E esse cabelo aí?

- Qual é pai, tá penteadinho.

- E o brinco?

- Para com isso pai, você sabe que eu não gosto.

- E os piercings? Na sobrancelha, no nariz…

- Já falei que não gosto disso pai. A vida é minha.

- Bota uma camisa melhorzinha então, mais leve, colorida.

- Qual é pai? Desde quando eu ligo pra isso?

- Você pode não ligar, mas as pessoas ligam, filho. E falam.

- Tô nem aí.

- Mas eu sou seu pai e eu estou aí, sim.

- Deixa eu ir que eu tô atrasado, velho.

- Se você quer ir assim, vai. Mas se ficar mal falado depois, não reclama.

- Que mal falado o quê, pai? O mundo muda, não estamos mais na sua época.

- Por isso mesmo.

- Ó, tô indo tá?

- Vai. Mas com esse terno, essa barba feita, esse sapato brilhando, sem um piercing ou uma tatuagem sequer, é minha obrigacão de pai dizer que você está parecendo um bandido, um delinquente, um marginal. Aliás, vestido assim você tá parecendo o ACM Neto.

- Tá bom pai, tá bom. Vou colocar um jeans.

- Rasgado, né?

- E uma camiseta.

- Se quiser uma dos Sex Pistols, eu empresto.

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